29. março 2019

Eugenio Barba leaves the direction of the Nordisk Teaterlaboratorium

EUGENIO BARBA DEIXA A DIREÇÃO DO NORDISK TEATERLABORATORIUM

Em 31 de dezembro de 2020 deixarei definitivamente minha posição de diretor do Nordisk Teaterlaboratorium em Holstebro. O cargo de coordenador artístico será assumido por Julia Varley e, a partir de 1 de janeiro de 2021, a responsabilidade geral estará nas mãos de um novo diretor que será escolhido pelo conselho administrativo.

Em 1964 éramos cinco, eu e quatro jovens rechaçados pela Escola Estadual de Teatro de Oslo, na Noruega. Entre eles, Torgeir Wethal e Else Marie Laukvik que permaneceram ao meu lado. Fundamos uma empresa e dividimos as ações entre nós porque a terra pertence a quem a trabalha. Demos ao nosso teatro o nome de um deus nórdico, Odin, que libera suas forças obscuras para destruir ou trazer conhecimento. Éramos um pequeno grupo amador curioso e ingênuo. Amávamos viajar no reino dos mortos – a história do teatro. Estávamos convencidos que, para realizar o teatro que desejávamos, deveríamos pagar de nosso próprio bolso. Em silêncio, com o rigor de monges, demos os primeiros passos como autodidatas em direção a um conhecimento que também foi a conquista de nossa diferença.

Em 1966 nosso grupo se transferiu a Holstebro, Dinamarca. Seus políticos acolheram esses jovens e desconhecidos atores estrangeiros e – como uma exceção na história da Europa - continuaram os apoiando geração após geração, ainda que nos primeiros anos a população tenha se mostrado hostil quanto à nossa forma estranha de fazer teatro. Holstebro se converteu em nossa pátria: aqui nasceram nossos filhos, aqui estão sepultados alguns de nós, aqui cresceram nossas asas.

Com os anos nos transformamos no Nordisk Teaterlaboratorium, um ambiente internacional de iniciativas no campo da técnica do ator e do uso do ofício na comunidade. O teatro não pode ser reduzido a um espetáculo que se compra com um ingresso. Nosso ofício possui uma dimensão cujo valor é imponderável, mas que deixa rastros profundos: a qualidade das relações, o desenvolvimento de uma microcultura, uma prática de laboratório social em contínua investigação, uma obstinação cotidiana que é um compromisso espiritual e político, a capacidade de nutrir uma resiliência contra a rotina implacável e o espírito do tempo.

Nosso laboratório abriu caminho a numerosas atividades: espetáculos em espaços não convencionais e na rua, pedagogia alternativa e pesquisa pura, estudos sociológicos, publicações de revistas e livros, produção de filmes, encontro e intercâmbios regulares com grupos teatrais de todo o mundo, colaboração com mestres de tradições asiáticas e latino-americanas, e da cultura afro-brasileira. Nossos atores se tornaram diretores, guias de gerações, forjadores de aventuras: The Bridge of Winds, de Iben Nagel Rasmussen, Transit Festival e o Magdalena Project de Julia Varley e outras mulheres na profissão, o Odin Week Festival de Roberta Carreri, o Laboratory Village de Kai Bredholt e Per Kap Jensen, a ISTA – International School of Theatre Anthropology, os Archivos vivos do Odin Teatret, a prática do teatro como troca cultural, a Festuge - semana festiva - que teatraliza e revela a variedade das subculturas de Holstebro.

Hoje, o Nordisk Teaterlaboratorium está profundamente radicado na história e nos desafios atuais de Holstebro. Seu ambiente compreende diversos grupos independentes dirigidos por artistas de teatro, estudiosos e empreendedores que se enquadram na mentalidade e no modo de proceder do “laboratório”: explorar, através da arte do ator, novas relações e condições para que o imprevisto possa acontecer.

Chegou a hora de entregar o comando, a responsabilidade e o peso das 101 decisões diárias àqueles que irão manter viva a essência que eu e meus companheiros destilamos durante esses 56 anos. Fui diretor de um teatro que quis intervir na realidade que o circundava. Segui a estratégia dos círculos na água. Lancei uma pedra que sabia como e onde atirar. Os círculos se alargam, movem coisas que estão próximas, produzem minúsculas correntes invisíveis. Mas eu, que atirei a pedra, não posso nem pretendo determinar o futuro dessas correntes.

Como uma nuvem, continuo minha viagem. Estou ensaiando dois espetáculos novos com meus atores do Odin. Continuarei me encontrando com grupos do terceiro Teatro. Não irei interromper minhas pesquisas sobre a transição do espaço interior do ator até seu primeiro gesto perceptível no espaço compartilhado com o espectador.

Não tenho herdeiros, nem tenho um legado para deixar. Meu ensinamento não se transmite e nem se extingue. Evapora-se. E cai como chuva na cabeça de quem menos o espera.


Eugenio Barba